Há pessoas que partem e levam apenas o próprio corpo.
Outras deixam a voz nos móveis, os gestos nos corredores, a respiração escondida entre os intervalos da nossa rotina.
E seguimos de olhos bem fechados.
São essas pessoas mais perigosas. Porque o tempo sabe apagar rostos, mas não sabe desfazer certas formas de sentir o mundo.
E assim seguimos de olhos bem fechados.
Você segue vivendo.Compra frutas. Responde mensagens.
Sorri em fotografias. Aprende novos nomes.
Dorme em outras camas. Mas seus olhos seguem fechados.
Mas alguma coisa dentro de você continua olhando a vida pela janela daquele antigo incêndio.
E o mais cruel é que não parece tristeza.Tristeza grita e isso não, isso te acomoda, mas você continua com os olhos fechados e não entende.
Com o tempo, esse sentimento vira um detalhe na maneira como você hesita, na dificuldade de acreditar em afetos tranquilos, na estranha saudade de uma intensidade que um dia quase te destruiu. Seus olhos já não seguem tão fechados.
Então você entende: não era amor apenas. Era reconhecimento que alguém encontrou em você. Foi uma porta que permanecia trancada até para si mesma.
E depois que essa porta foi aberta, você nunca mais conseguiu fingir que aquele cômodo não existia. É por isso que certas ausências amadurecem conosco. Elas mudam de forma, aprendem silêncio, ficam sofisticadas e enquanto nossos olhos não se abrem, não podemos entender.
Elas já não doem o tempo inteiro. Só aparecem às vezes, quando a noite demora demais, quando uma música toca sem aviso, ou quando alguém te olha com quase a mesma delicadeza e você percebe, assustada, que ainda está tentando voltar para uma versão antiga de si.
Talvez crescer seja isso: descobrir que algumas pessoas não foram feitas para permanecerem na nossa vida. Mas permanecerem na maneira como passamos a existir depois delas.
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